CD Estudos, Peças e Arranjos

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A gente sempre se refere ao início do século XIX como a Era de Ouro do violão clássico, mas as grandes composições para violão foram escritas, mesmo, no século XX. Do mesmo jeito, cada um vai escolher uma década do século XX como a Era de Ouro do violão brasileiro, e, claro, os nomes de Canhoto, Dilermando Reis, Garoto, Baden Powell e tantos outros estão gravados na história para justificar a preferência.

Mas a verdade é que a Era de Ouro do violão brasileiro é hoje. Nunca houve uma variedade tão grande de propostas estéticas, de inovações, de aportes regionais de Norte a Sul, de linguagens individualizadas, de gente com boa formação, com grande técnica, imaginação e coração.

No meio de toda essa profusão, sempre surge a figura do estilista. O estilista não se interessa pelo virtuosismo exacerbado, nem pelas harmonias mais densas, por influências inusitadas ou por inovações tecnológicas. Isso ele deixa para os outros, do alto da experiência de quem já viu tudo e pode se dar ao luxo de escolher. O estilista é como vermute: um blend tão especial de coisas nobres e simples que se transforma num sabor único e inimitável. Parece que cada ingrediente nasceu só para contribuir para aquele resultado.

Nonato Luiz é o estilista do violão brasileiro hoje. Não interessa se este nativo do Lavras da Mangabeira, Ceará, faz arranjos de baião ou Beatles, de Milton Nascimento ou de choro. Tudo traz a marca da simplicidade sábia, daquele que consegue criar um enredo completo em 10 segundos de uma introdução bem bolada, que faz as melodias emergir imperceptivelmente do harpejo mais despretensioso, a figura se delineando a partir do pano de fundo.

Este eterno menino e eterno prodígio, que começou a tocar cavaquinho por conta própria aos três anos e depois se formou em violino antes de trocar alianças com o violão, o Nonato Luiz autor de sucessos como “Rubi Grená” agora vem com um disco onde cada faixa é uma surpresa.

A música consegue expressar uma gama de sentimentos e sensações com relativa facilidade, ou ao menos essas impressões se consagraram pelo uso ao longo dos séculos. Nostalgia, ternura, agitação, triunfo, dissabor, melancolia, excitação, desejo, animação, tudo isso faz parte do arsenal dos compositores e é facilmente reconhecível. Mas outros sentimentos não são assim tão fáceis de transmitir de uma forma fácil de reconhecer. Amizade, por exemplo. Compositores escreveram óperas inteiras para tentar achar o equivalente musical da amizade, e ainda assim ficou uma amizade meio oficiosa e corporativa, eivada de um sentimento de dever. Nonato Luiz só precisou escrever “Além Mar”, uma balada tão simples que até derruba, e – pimba! – a gente vê todo o afeto que é a marca registrada das apresentações desse artista que toca para todos como se tocasse para cada um. Ele não consegue evitar esse tom conciliatório, nem na extravagante “A Concordância” ou no intrigante “Choro Crescido”, que parece que tenta apaziguar as dissonâncias do material musical. Desnecessário dizer que, mais que homenagem, “Saudades do Baden” é uma declaração de amizade. É uma amizade musical tão íntima que até abre a geladeira do Baden e fila um pedacinho de “Berimbau”.

Logo de cara, concertista que sou, se tivesse de escolher uma música para tocar nos meus recitais, teria escolhido a “Villalobiana”, com sua ampla melodia nos baixos e o acompanhamento de harmonias mutantes que evoca o homenageado enquanto perfura o coração do ouvinte. Nonato Luiz esconde muito bem esse punhal.

Mesmo nas músicas que bebem com mais avidez das fontes folclóricas do Nordeste, como “Bola de Ouro”, há algo de pontiagudo nas harmonias e no efeito que elas provocam em quem ouve. Neste disco, Nonato está bem saidinho, dando vôos arrojados à sua imaginação, completando projetos integrados. Escreveu uma valsa de concerto na tradição de Barrios, a “Valsa Triunfante”: fez uma bela “Suíte Nordestina N° 2”, um apanhado sucinto das músicas de uso social do Nordeste, a serenata, o xote, o frevo; e uma série de seis estudos que estão inexoravelmente destinados a frequentar as estantes de aprendizes de violão em todo o país, que não vão achar nenhuma forma mais divertida de estudar ligados que os “Estudos N° 2 e N° 6”.

O uso da afinação aberta em sol maior da viola caipira é a grande sacada do “Estudo N° 5” (como Gnattali já havia usado no seu próprio Estudo N° 5), mas como é que alguém pega uma fórmula clássica de harpejo como o do “Estudo N° 1”, “Estudo N° 3” ou do “Estudo N° 4” e faz aquilo soar como um ponteado de viola é um milagre que só Nonato Luiz pode explicar. Até agora daria a impressão de que o disco é totalmente autoral, mas deixei os dois arranjos por último.

O primeiro é uma música não muito conhecida de Garoto, “Meu Coração”, que o autor só gravou com o Trio Surdina, com a melodia no violino e acompanhamento de acordeão, mas que ficou bem redonda no arranjo de violão solo, aumentando o repertório garotiano de violão. O outro é o arqui-standard do repertório do choro – “Saxofone, por que choras?” – de Ratinho. Este arranjo revela por que o saxofone está chorando: porque ele está doido pra se transformar num violão, para ser tocado com tanta alegria pelo Nonato Luiz.

Fábio Zanon

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